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Artigo 01

O Homem é o Cérebro?

Marcus De Mario*

Desde a antiguidade o homem procura a si mesmo no anseio de descobrir quem ele é, e para essa busca primeiramente utilizou a filosofia, instrumento de indagação e questionamento da vida desvendando a verdade, a qual, ele descobriu, nunca é revelada por inteiro. Através da filosofia o homem chegou a dois conceitos diversos sobre si mesmo: o materialista e o espiritualista.
O conceito filosófico materialista afirma ser o homem causa de si mesmo, intimamente ligado aos elementos materiais primitivos da natureza. O homem é o próprio corpo. Já o conceito filosófico espiritualista remete o homem ao transcendente. Ele é alma. A luta entre os dois conceitos filosóficas sempre foi travada ao longo da história humana, com preponderância, na civilização ocidental, da idéia materialista, embora o Cristianismo, religião dominante, tenha suas bases no mais puro espiritualismo: a existência de Deus como ser supremo e criador e o homem como alma imortal.
A contradição entre a religiosidade, ou seja, o sentimento de fé, e a filosofia de vida que a maioria toma para si, tem uma de suas raízes na luta incessante pela necessidade de sobrevivência e satisfação do organismo biológico, o que leva o homem a pensar no dia de hoje sem maior preocupação com o dia de amanhã, tornando-o imediatista. Outra raiz está no misticismo e nas contradições dogmáticas das doutrinas religiosas, que levam o homem a ficar ainda mais confuso quanto à realidade ou não da alma.
Assim, desiludido com a filosofia, embora não a desconsiderando, o homem elegeu a ciência para chegar à verdade.

A verdade da ciência

Através do estudo dos elementos da natureza, a ciência procura desvendar o mistério da vida. No início, ainda na Antiga Grécia, procurou intuitivamente os elementos primitivos: terra, água, fogo, ar, para depois, com o advento da alquimia e o aparecimento de pesquisadores com verdadeiro espírito científico, tornar-se produtora de explicações lógicas, racionais, estudando os fenômenos e deles chegando às causas.
Por muito tempo a pesquisa científica foi travada pelo dogmatismo religioso, mas a partir do século 17, principalmente, conquistou definitivamente seu espaço, chegando mesmo os iluministas ingleses e franceses, no século 18, a declarar a ciência e a razão como guias infalíveis da humanidade. Mas, a ciência não tem a última palavra. As descobertas se sucedem, e o que era considerado definitivo passa a secundário, e muitos enigmas persistem, desafiando a ciência, entre eles: quem é o homem?, o que é o homem?, quando começou o universo?, o que existe depois da morte?, há vida em outros planetas?.
As primeiras pesquisas sobre o homem concentraram-se no seu corpo. Acompanhando seu funcionamento e realizando as primeiras autópsias, o homem desenvolveu a biologia humana e a medicina, e proclamou: a alma não existe, pois o corpo aberto sobre a mesa cirúrgica mostrava apenas a existência de órgãos materiais, nada de alma. Entretanto, se a alma não é material, como ela poderia aparecer aos olhos materiais dos pesquisadores? E como poderia se concentrar dentro do corpo biológico se não é um órgão do mesmo, e sim o ser eterno, causa da vida desse corpo?
Logo a ciência se viu embaraçada pela existência dos fenômenos psíquicos e percebeu a necessidade de descobrir o cérebro, pois ali parece estar a própria vida.

O cérebro do homem

Nosso cérebro representa apenas 2% do peso total do corpo, mas possui, segundo pesquisas atuais, aproximadamente 75 bilhões de neurônios, sendo que em algumas de suas partes, para realizar suas funções, aglomera até 5 milhões de neurônios de uma só vez.. Como os neurônios estão em atividade permanente, o consumo de energia é grande, motivo pelo qual o cérebro consome 20% do oxigênio diário necessário para o corpo.
O cérebro é, na verdade, uma parte do sistema nervoso central, parte mais complexa, e desempenha, entre outras funções, a do raciocínio e a da linguagem, pesando 1182 gramas, em média, no homem e 1093 na mulher. A diferença de peso não parece afetar nenhuma função.
Uma característica dos neurônios não pode ser desprezada: eles não se renovam. Com o avanço da idade menos neurônios no cérebro, e já sabemos que cérebro lesionado, o que importa dizer neurônios danificados ou suprimidos, não consegue realizar funções vitais para a sobrevivência do ser humano. Mas, existe algo que intriga os pesquisadores: apesar da velhice e das lesões, nem sempre a memória se perde e recuperações fantásticas são realizadas por pessoas que exercitam sua força de vontade.
É que o cérebro é a máquina, a alma é o operador. Em outras palavras: a alma é o centro de tudo - emoções, pensamentos, etc. - ,o cérebro é seu instrumento, facilitando a coordenação do corpo e servindo de canal para as múltiplas manifestações da alma.
A ciência ainda não admite essa conclusão, insistindo que tudo está nas funções cerebrais: a linguagem, o pensamento, a coordenação motora, a emoção, e muito mais. Isso porque insiste em tomar o efeito pela causa. Porque os fenômenos da vida humana se manifestam através de diversas funções cerebrais, isso não quer dizer que o instrumento seja o principal.

A alma

Em "Obras Póstumas", Allan Kardec estuda o tema na primeira parte, sob o título "Profissão de Fé Espírita Racional". Destaquemos o item 4:
"Há no homem um princípio inteligente que se chama alma ou espírito, independente da matéria e que lhe dá o senso moral e a faculdade de pensar. Se o pensamento fosse propriedade da matéria, ver-se-ia a matéria bruta pensar; ora, como jamais se viu matéria inerte dotada de faculdades intelectuais, e como, quando o corpo está morto, deixa de pensar, deve-se concluir que a alma é independente da matéria, e que os órgãos são apenas os instrumentos, com o auxílio dos quais o homem manifesta seu pensamento."
Partindo do efeito, o corpo material, biológico, Kardec chega à causa, pois se o corpo morto não pensa, para onde foi o pensamento? E se o pensamento fosse um atributo do corpo, que é matéria, porque outros seres orgânicos não pensam? Ampliando esse entendimento, lemos no item 5:
"Se, de acordo com os materialistas, o pensamento fosse secretado pelo cérebro, do mesmo modo que a bile é secretada pelo fígado, disso resultaria que, com a morte do corpo, a inteligência do homem e todas as suas qualidades morais reverteriam ao nada; que os parentes, os amigos e todos aqueles a quem tivéssemos amado estariam perdidos para sempre; que o homem de gênio não teria mérito, visto suas faculdades transcendentes serem devidas a um mero acaso de seu organismo; que não haveria entre o imbecil e o sábio diferença alguma, a não ser uma questão de maior ou menor massa cerebral."
Será que vivemos apenas para, depois de muitas experiências, morrer e tudo acabar? Sentimento e inteligência perderem-se no nada? E tudo o que somos resumir-se a um aglomerado biológico?
A própria ciência não pode admitir essas idéias, pois o avanço dos transplantes e da engenharia genética as desmentem. Mais e mais órgãos são substituídos, corrigidos e nem por isso o homem deixa de manter sua individualidade e personalidade.

Concluindo

O homem não pode ser o cérebro. Inúmeras experiências de quase morte, de sonambulismo, de hipnose conduzida, de regressão a vidas passadas e a extensa bibliografia dos fenômenos mediúnicos desmentem categoricamente essa idéia de que os neurônios cerebrais respondem pelo ser humano.
Na verdade, face à complexidade da engenharia cerebral, inigualável e sem parâmetro nas invenções humanas, deveria a ciência reconhecer a existência de algo superior e transcendente na vida, pois todo o conhecimento científico acumulado é insuficiente para responder satisfatoriamente o que é e quem é o homem.
Quando exercitamos, através dos processos educacionais, o desenvolvimento cognitivo e emocional do ser humano, não estamos apenas desenvolvendo essa ou aquela parte do cérebro responsável pela manifestação da inteligência e dos sentimentos, estamos, acima de tudo, estimulando a alma, ou espírito, a se manifestar e dominar a máquina que lhe serve de instrumento para a presente existência. Somos espírito e corpo, somos seres integrais. O perispírito (corpo espiritual) é instrumento do espírito, assim como o corpo é instrumento da alma (o espírito encarnado).
O homem não é o cérebro, e o pensamento, assim como a consciência, não moram nos neurônios, mas vivem no íntimo da alma imortal, que leva para todo o sempre, como conquista inalienável, o amor e a sabedoria.

*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor.