
Marcus De Mario*
A Unesco, órgão dedicado à educação da
ONU - Organização das Nações Unidas, pu-blicou recentemente
o Relatório Regional para a América Latina e Caribe, realizado
pelo seu Instituto de Estatísticas, relatório esse que tem como
objetivo compor, sistematizar e apresentar indicadores educacionais internacionalmente
comparáveis para que cada país possa tomar me-lhores decisões
estratégicas sobre tais políticas públicas. É, sem
dúvida, um instrumento valioso para conhecermos a educação
brasileira e refletirmos sobre a mesma em comparação com outros
países. O relatório considera prioridade a educação
básica, o que no Brasil convencionou-se ser a educação
fundamental (7 a 14 anos).
Para estabelecermos nossa análise apresentamos abaixo alguns resultados
produzidos pe-lo relatório quanto ao Brasil:
O Brasil investe 4,5% do PIB - Produto Interno Bruto em educação,
quando a média dos outros países é de 6,7%.
O Brasil está em último lugar na relação gasto em
educação/gasto total do governo.
Temos 58% das crianças em idade própria matriculadas na educação
infantil contra 67%, em média, de outros países.
74% das crianças com idade própria para a educação
infantil estão matriculadas em esco-las particulares, quando deveriam
estar na escola pública.
Nossa taxa de repetência da 1ª à 4ª séries é
de 24%, a pior de toda América Latina e Cari-be.
Apenas 50% das crianças em idade própria estão matriculadas
da 5ª à 8ª séries, com uma taxa de repetência
de 18%, a maior entre os países.
Temos o maior número de professores, mas a relação alunos
por professor é muito alta na educação fundamental, principalmente
de 1ª à 4ª séries.
Esses dados estatísticos, além de servirem de parâmetro
para nortear a política pública de educação, servem
também como base para a política internacional de amparo à
educação e proje-tos sociais brasileiros.
Como podemos perceber, a educação no Brasil está abaixo
da média internacional, mas, perguntamos, essas estatísticas revelam
realmente o essencial sobre a educação? Será que melho-rando
os índices - e eles devem realmente ser melhorados - estaremos com uma
boa educação? Ou seja, podemos medir a educação
por estatísticas materialmente mensuráveis, ou a educação
deve ter outra abordagem?
Do ponto de vista espírita a educação não pode ser
representada apenas por dados estatís-ticos, pois trata-se de qualificarmos
a formação moral e intelectual do ser humano, espírito
reen-carnado e imortal. E esse pensamento também está presente
em educadores não-espíritas.
O que pensam os educadores
"Na verdade, eu pretendia provar, com minha experiência, que as
vantagens da educação familiar devem ser reproduzidas pela educação
pública e que a segunda só tem valor para a hu-manidade se imitar
a primeira. Aos meus olhos, ensino escolar que não abranja todo o espírito,
como exige a educação do homem, e que não seja construído
sobre a totalidade viva das relações familiares conduz apenas
a um método artificial de encolhimento de nossa espécie"
- Pestalozzi (1).
"Nosso segundo desejo é que todo homem seja educado integralmente,
formado correta-mente, não num objeto particular ou em alguns objetos
ou mesmo em muitos, mas em tudo o que aperfeiçoa a espécie humana;
para que ele seja capaz de saber a verdade e não seja iludido pelo que
é falso; para amar o bem e não ser seduzido pelo mal; para fazer
o que deve ser feito e não permitir o que deve ser evitado; para falar
sabiamente sobre tudo, com qualquer um, quando ne-cessário, e não
ser estúpido em nenhum assunto e finalmente para lidar com as coisas,
com os homens e com Deus, em todos os sentidos, racionalmente e não precipitadamente
e assim nunca se afastando da meta da felicidade" - Comênio (2).
"Um homem cuja centelha divina não floresceu e cuja experiência
espiritual ainda não foi despertada, nunca compreenderá o propósito
completo de sua vida. Nos dias em que vivemos, as pessoas pensam que educação
é ter intimidade com um grande número de livros. Familiaridade
com livros nunca poderá ser entendida como educação"
- Sai Baba (3).
"Lembrai-vos sempre que o espírito de minha instituição
não é ensinar à criança muitas coisas, mas de jamais
fazer entrar em seu cérebro senão idéias justas e claras.
Quando ela não souber nada, pouco importa, contanto que ela não
se engane, e não ponho verdades na sua cabeça senão para
garanti-la contra os erros que ela aprenderia em seu lugar. A razão,
o julgamento, vem lentamente, os preconceitos acorrem em multidão; é
contra esses que cumpre preservá-la" - Rousseau (4).
"O direito á educação intelectual e moral implica
algo mais que um direito a adquirir co-nhecimentos, ou escutar, e algo mais
que uma obrigação a cumprir: trata-se de um direito a forjar determinados
instrumentos espirituais, mais preciosos que quaisquer outros, e cuja construção
requer uma ambiência social específica, constituída não
apenas de submissão. A educação é, por conseguinte,
não apenas uma formação, mas uma condição
formadora necessária ao próprio de-senvolvimento natural"
- Jean Piaget (5).
O que pensa a doutrina espírita
O pensamento espírita sobre educação está exposto
de forma clara em "O Livro dos Espí-ritos" (6), mostrando que
a verdadeira educação é aquela que dá formação
moral ao espírito ren-carnante, direcionando assim sua inteligência
para o campo do bem. Na questão 385, comentário de Allan Kardec,
lemos: "A infância tem ainda outra utilidade: os espíritos
não ingressam na vida corpórea senão para se aperfeiçoarem,
para se melhorarem; a debilidade dos primeiros anos os torna flexíveis,
acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que devem faze-los
pro-gredir. é então que se pode reformar o seu caráter
e reprimir as suas más tendências."
Esse pensamento está ainda mais claro, e com todas as letras, em outro
comentário do codificador, na questão 685-A: "Há um
elemento que não se ponderou bastante, e sem o qual a ciência econômica
não passa de teoria: a educação. Não a educação
intelectual, mas a moral, e nem ainda a educação moral pelos livros,
mas a que consiste na arte de formar os caracteres, aquela que cria os hábitos,
porque educação é conjunto de hábitos adquiridos."
Na resposta á questão 796, os Espíritos Superiores condenam
as leis penais severas por punirem apenas o mal praticado, ou seja, não
atingem a raiz do problema, informando que para isso, "Somente a educação
pode reformar os homens, que assim não terão mais necessidade
de leis tão rigorosas." Mas, qual educação? É
o próprio codificador, analisando os ensinos espiritu-ais, quem responde,
na questão 872: "Cabe á educação combater as
más tendências, e ela o fará de maneira eficiente quando
se basear no estudo aprofundado da natureza moral do homem."
E os Espíritos Superiores afirmam: "Se uma boa educação
moral tivesse ensinado os ho-mens a praticar a lei de Deus, não teriam
caído nos excessos que os levaram à perda. E é disso, sobretudo,
que depende o melhoramento do vosso globo" (questão 889).
Finalmente, volta Allan Kardec a aprofundar o pensamento espírita no
comentário à ques-tão 917: ""Não essa
educação que tende a fazer homens instruídos, mas a que
tende a fazer ho-mens de bem."
Conclusão
Se as estatísticas são importantes para o monitoramento do ensino,
elas não revelam o essencial da educação, ou seja, a qualidade
da formação moral do educando, formação essa que
não pode ser medida por provas, exames e testes.
Há uma urgente necessidade da reformulação dos cursos de
capacitação de professores, assim como necessidade de implantação
de uma nova filosofia de educação, para que a escola trabalhe
a formação integral do ser e não apenas o seu saber cultural.
Como bem lembra J. Herculano Pires, "A educação não
é um ato de imposição, de viola-ção de consciência,
mas um ato de doação. O educador oferece ao educando os elementos
de que ele necessita para integrar-se no meio cultural e poder experimentar
por si mesmo os valores vigentes, rejeitando-os, aceitando-os ou reformulando-os
mais tarde, quando amadurecer para isso" (7).
A educação moral também deve ser o objeto da evangelização
espírita infanto-juvenil, porque esse é o entendimento que o Espiritismo
possui sobre educação.
O Brasil avançará decididamente na educação quando
priorizar a educação moral e não apenas a melhora das estatísticas,
pois ensino público de qualidade não se mede apenas do ponto de
vista material quantitativo.
Bibliografia
(1) Incontri, Dora. Pestalozzi, Educação e Ética. 1ª
ed., Scipione: São Paulo, 1996, 183 p.
(2) Covello, Sérgio Carlos. Comenius, a Construção da Pedagogia.
3ª ed., Comenius: Jundiaí, 1999, 159p.
(3) Baba, Bhagavan Sri Sathya Sai. Rosas de Verão nas Montanhas Azuis.
1ª ed, CCeP: Rio de Janeiro, 1999, 237p.
(4) Rosa, Maria da Glória de. A História da Educação
Através dos Textos. 6ª ed., Cultrix: São Paulo, 1978, 315p.
(5) Piaget, Jean. Para Onde Vai a Educação?. 2ª ed., José
Olympio: Rio de Janeiro, 1974, 89p.
(6) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. s/ed, Feesp: São Paulo,
1972, 410p.
(7) Pires, J. Herculano. Pedagogia Espírita. 1ª ed., Edicel: São
Paulo, 194p.
*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor.