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Artigo 04

Educar e Mais Educar

Marcus De Mario*

É possível classificarmos, de forma otimista, a última década do século vinte como sendo a década da educação brasileira, marcada pela edição da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), mas esse otimismo não pode ser exagerado, pois ainda enfrentamos anal-fabetismo, repetência, exclusão escolar e muita discussão teórica no lugar da prática.

As diversas realidades
Na esteira da nova LDB vários posicionamentos e ações tiveram lugar: a descentralização administrativa com maior autonomia para a escola pública, o discurso em benefício da formação da cidadania, a edição dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) sancionando os temas transversais, a aprovação do Plano Nacional da Educação (PNE), o aumento real do salário dos professores no norte e nordeste. São pontos positivos. Do outro lado dessa moeda tivemos alguns pontos negativos: a utilização questionável de provas para avaliar o ensino fundamental, médio e universitário, a exagerada preocupação com as estatísticas gerando o absurdo da aprovação sem qualidade, a não prioridade para a capacitação dos professores.
Mas, somos otimistas, acreditamos nos diversos esforços em andamento para a melhoria da qualidade profunda do ensino público brasileiro e, também, do particular, que um dia entende-rá que escola não é sinônimo de empresa comercial, como muitos já entenderam
Contudo, é necessário mudar a filosofia que rege a educação nacional, dando prioridade para a formação da cidadania através do desenvolvimento do senso moral do educando, num processo pedagógico que leve em conta parâmetros éticos, único caminho para renovação da sociedade brasileira e tirar das manchetes jornalísticas a violência, a criminalidade, a miséria, a corrupção, a poluição desenfreada, o desmatamento, o abandono infantil e tantas outras mazelas que mancham os esforços até agora realizados pró-educação.
Educar é, deve ser e será sempre prioridade para qualquer administrador público, embora a maioria não tenha ainda entendido que no lugar de obras e mais obras, melhor é educação e mais educação, pois a formação moral do cidadão é mais duradoura que qualquer concreto.

O que diz a doutrina espírita
É nesse contexto que a doutrina espírita adentra com muita profundidade, ao encarar a educação do ponto de vista moral. O período infantil é propício para: 1) deixar o espírito reen-carnado mais acessível aos bons conselhos e exemplos dos pais e educadores; 2) tornar o espírito mais flexível através da debilidade física; 3) reformar o caráter e corrigir más tendências desse espírito (1). Quando os Espíritos Superiores, em O Livro dos Espíritos, falam em reformar o ca-ráter está implícito o reforço às boas tendências conquistadas pelo espírito reencarnante em vidas passadas.
Na questão 629 de O Livro dos Espíritos, ao definirem o que é moral, os espíritos indi-cam duas regras básicas de procedimento para o ser humano. São elas: 1) fazer tudo tendo em vista o bem, e 2) fazer tudo tendo em vista o bem de todos. Isso porque o bem não pode ser uni-lateral, ou seja, a ação não pode gerar benefícios somente para um indivíduo, e sim para todos. Só é bom aquilo que faz bem para todos. É por isso que vários discursos clamam pelas ações solidárias humanas, tão necessárias e que devem ser desenvolvidas desde a infância, para que a criança faça disso um hábito.
Ainda nessa temática da educação do ponto de vista moral, Allan Kardec adverte em co-mentário à questão 685-A de O Livro dos Espíritos: "Há um elemento que não se ponderou bas-tante, e sem o qual a ciência econômica não passa de teoria: a educação. Não a educação inte-lectual, mas a moral, e nem ainda a educação moral pelos livros, mas a que consiste na arte de formar os caracteres, aquela que cria os hábitos adquiridos" (2).

Primeira advertência: educação moral
A primeira advertência é que a solução para os problemas sociais e econômicos não está na educação intelectual, mas na educação moral. De fato, as gerações se sucedem e o ensino con-tinua agarrado à transmissão de conteúdos curriculares, aos procedimentos para conquista de diplomas e certificados, sem que o ser humano consiga fazer disso solução para os males gerais que assolam o indivíduo e a sociedade. Já dizia Léom Denis, em 1908: "Com efeito, na universi-dade, como na igreja, a alma moderna não encontra senão obscuridade e contradição em tudo quanto respeita ao problema de sua natureza e de seu futuro. É a esse estado de coisas que se deve atribuir, em grande parte, os males de nossa época, a incoerência das idéias, a desordem das consciências, a anarquia moral e social. A educação que se dá às gerações é complicada; mas, não lhes esclarece o caminho da vida; não lhes dá a têmpera necessária para as lutas da existência. O ensino clássico pode guiar no cultivo, no ornamento da inteligência; não inspira, entretanto, a ação, o amor, a dedicação. Ainda menos obtém se faça uma concepção da vida e do destino que desenvolva as energias profundas do eu e nos oriente os impulsos e os esforços para um fim elevado. Essa concepção, no entanto, é indispensável a todo ser, a toda sociedade, porque é o sustentáculo, a consolação suprema nas horas difíceis, a origem das virtudes e das altas inspirações" (3).
Imaginemos uma escola, coadjuvada pela família, onde a formação do caráter dos edu-candos seja o objetivo a ser alcançado, fazendo os professores todos os esforços para esse grande fim. Que belas imagens em nossa mente! Que quadros emocionantes a envolverem nosso cora-ção! E não se diga que isso não é possível, pois Pestalozzi o realizou, Sai Baba o realiza hoje, na Índia, as centenas de escolas espíritas de evangelização infanto-juvenil o realizam semanalmente, e tantos outros exemplos podemos apontar como testemunhas dessa possibilidade: da educação moral do ser humano em plena escola.

Segunda advertência: o exemplo
Temos, ainda, uma segunda advertência no comentário de Kardec: a educação moral não se realiza pela ilustração cultural, ou seja, pelos livros. Eles, os livros, são muito importantes, assim como a cultura em geral com suas diversas manifestações, mas o livro, o teatro, o cinema, a internet são ferramentas, são recursos, não são a educação moral. Uma história pode ser bela e encerrar ensinos profundos sobre valores e virtudes, mas se não for adequadamente trabalhada, vivenciada e exemplificada pode não atingir seu próprio objetivo, que é despertar o espírito para a beleza e necessidade do amor, da solidariedade, da espiritualidade.
Compete aos pais e responsáveis - os primeiros e contínuos educadores -, e aos professo-res - os educadores formais -, todo o esforço em exemplificar as lições que entregam aos seus filhos/alunos. Sem o exemplo, qualquer lição sobre virtudes perde valor, e a leitura pode gerar apenas um repositório de conhecimento sem aplicação.
A auto-educação é o processo ao qual deve se dedicar todo pai, toda mãe, todo responsá-vel, todo professor, por maiores sejam as dificuldades a vencer, pois quem ensina e ao mesmo tempo dá o exemplo, consegue transformar.

Terceira advertência: o caráter
Finalmente, as palavras de Allan Kardec destacam que "a educação é a arte de formar os caracteres, aquela que cria os hábitos adquiridos".
Não se pode educar para a paz com o uso da violência, mesmo verbal; se eu grito com meu filho para ele obedecer, estou usando de violência.
Não se pode educar para a honestidade com a mentira; se eu escondo a verdade em pro-veito próprio, estou sendo desonesto.
Não se pode educar para a solidariedade com o egoísmo; se eu penso primeiro em mim mesmo, estou sendo egoísta..
Não se pode educar para a cidadania com a indiferença; se eu não me importo com o que acontece porque não me atinge diretamente, estou sendo hipócrita.
Educar moralmente é cultivar na criança, no adolescente e no jovem hábitos regulares de bondade, de amor ao próximo, de solidariedade humana, de respeito à natureza e tantos outros; hábitos esses que se tornarão incorruptíveis porque farão parte indissociável do caráter do indiví-duo.
Sim, tudo isso é possível e sem menosprezar os conteúdos curriculares, os alegres passei-os em família, as diversões sadias, o ambiente cultural, ou seja, sem colocar de lado a vida, por-que a vida é educação. O que a doutrina espírita enfatiza é o equilíbrio entre as diversas ações humanas para se atingir a finalidade de termos sobre a face da Terra, homens de bem. Espíritos reencarnados que saibam colocar a inteligência a serviço da construção do bem; que, utilizando a lei de evolução, consigam se moralizar e espiritualizar graças aos esforços daqueles a quem compete a missão de educar junto com o indispensável auxílio da auto-educação deles mesmos.

Conclusão
Que belo sonho, dirão muitos. Não, não é um sonho, é um ideal que devemos perseguir constantemente, com todas as forças, pois o amor cresce na medida em que nos propomos a a-mar.
Reconhecendo a necessidade da transformação da educação, pois hoje o ensinar substitui o educar e a escola substitui a família, transformação essa que não se restringe a uma mera troca de palavras ou inversão dos fatores, temos que nos colocar em atividade prática, no lar, na esco-la, nas diversas instituições públicas e particulares, para realizar a educação moral do ser huma-no, único caminho para, o mais rápido possível, alcançarmos o estágio planetário de regeneração.
Lemos em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 11, item 8: "O espírito deve ser cultivado como um campo. Toda a riqueza futura depende do trabalho atual. E mais que aos bens terrenos, ele (o amor) vos conduzirá à gloriosa elevação. Será então que, compreendendo a lei de amor, que une todos os seres, nela buscareis os suaves prazeres da alma, que são o prelú-dio das alegrias celestes" (4).
Não se pode realizar a educação moral sem amor no coração, porque o amor é a base da educação e a bússola de orientação para todo educador.


Bibliografia

(1) Mario, Marcus Alberto De. Visão Espírita da Educação. 1 ed, Clarim, Matão, 1999.
(2) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de J. Herculano Pires, Feesp, São Paulo, 1972.
(3) Denis, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 14 ed, Feb, Rio de Janeiro, 1987.
(4) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires, 32 ed, Lake, São Paulo, 1986.

*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor.