
Marcus De Mario*
É possível classificarmos, de forma otimista, a última década do século vinte como sendo a década da educação brasileira, marcada pela edição da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), mas esse otimismo não pode ser exagerado, pois ainda enfrentamos anal-fabetismo, repetência, exclusão escolar e muita discussão teórica no lugar da prática.
As diversas realidades
Na esteira da nova LDB vários posicionamentos e ações tiveram
lugar: a descentralização administrativa com maior autonomia para
a escola pública, o discurso em benefício da formação
da cidadania, a edição dos Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCNs) sancionando os temas transversais, a aprovação do Plano
Nacional da Educação (PNE), o aumento real do salário dos
professores no norte e nordeste. São pontos positivos. Do outro lado
dessa moeda tivemos alguns pontos negativos: a utilização questionável
de provas para avaliar o ensino fundamental, médio e universitário,
a exagerada preocupação com as estatísticas gerando o absurdo
da aprovação sem qualidade, a não prioridade para a capacitação
dos professores.
Mas, somos otimistas, acreditamos nos diversos esforços em andamento
para a melhoria da qualidade profunda do ensino público brasileiro e,
também, do particular, que um dia entende-rá que escola não
é sinônimo de empresa comercial, como muitos já entenderam
Contudo, é necessário mudar a filosofia que rege a educação
nacional, dando prioridade para a formação da cidadania através
do desenvolvimento do senso moral do educando, num processo pedagógico
que leve em conta parâmetros éticos, único caminho para
renovação da sociedade brasileira e tirar das manchetes jornalísticas
a violência, a criminalidade, a miséria, a corrupção,
a poluição desenfreada, o desmatamento, o abandono infantil e
tantas outras mazelas que mancham os esforços até agora realizados
pró-educação.
Educar é, deve ser e será sempre prioridade para qualquer administrador
público, embora a maioria não tenha ainda entendido que no lugar
de obras e mais obras, melhor é educação e mais educação,
pois a formação moral do cidadão é mais duradoura
que qualquer concreto.
O que diz a doutrina espírita
É nesse contexto que a doutrina espírita adentra com muita profundidade,
ao encarar a educação do ponto de vista moral. O período
infantil é propício para: 1) deixar o espírito reen-carnado
mais acessível aos bons conselhos e exemplos dos pais e educadores; 2)
tornar o espírito mais flexível através da debilidade física;
3) reformar o caráter e corrigir más tendências desse espírito
(1). Quando os Espíritos Superiores, em O Livro dos Espíritos,
falam em reformar o ca-ráter está implícito o reforço
às boas tendências conquistadas pelo espírito reencarnante
em vidas passadas.
Na questão 629 de O Livro dos Espíritos, ao definirem o que é
moral, os espíritos indi-cam duas regras básicas de procedimento
para o ser humano. São elas: 1) fazer tudo tendo em vista o bem, e 2)
fazer tudo tendo em vista o bem de todos. Isso porque o bem não pode
ser uni-lateral, ou seja, a ação não pode gerar benefícios
somente para um indivíduo, e sim para todos. Só é bom aquilo
que faz bem para todos. É por isso que vários discursos clamam
pelas ações solidárias humanas, tão necessárias
e que devem ser desenvolvidas desde a infância, para que a criança
faça disso um hábito.
Ainda nessa temática da educação do ponto de vista moral,
Allan Kardec adverte em co-mentário à questão 685-A de
O Livro dos Espíritos: "Há um elemento que não se
ponderou bas-tante, e sem o qual a ciência econômica não
passa de teoria: a educação. Não a educação
inte-lectual, mas a moral, e nem ainda a educação moral pelos
livros, mas a que consiste na arte de formar os caracteres, aquela que cria
os hábitos adquiridos" (2).
Primeira advertência: educação moral
A primeira advertência é que a solução para os problemas
sociais e econômicos não está na educação
intelectual, mas na educação moral. De fato, as gerações
se sucedem e o ensino con-tinua agarrado à transmissão de conteúdos
curriculares, aos procedimentos para conquista de diplomas e certificados, sem
que o ser humano consiga fazer disso solução para os males gerais
que assolam o indivíduo e a sociedade. Já dizia Léom Denis,
em 1908: "Com efeito, na universi-dade, como na igreja, a alma moderna
não encontra senão obscuridade e contradição em
tudo quanto respeita ao problema de sua natureza e de seu futuro. É a
esse estado de coisas que se deve atribuir, em grande parte, os males de nossa
época, a incoerência das idéias, a desordem das consciências,
a anarquia moral e social. A educação que se dá às
gerações é complicada; mas, não lhes esclarece o
caminho da vida; não lhes dá a têmpera necessária
para as lutas da existência. O ensino clássico pode guiar no cultivo,
no ornamento da inteligência; não inspira, entretanto, a ação,
o amor, a dedicação. Ainda menos obtém se faça uma
concepção da vida e do destino que desenvolva as energias profundas
do eu e nos oriente os impulsos e os esforços para um fim elevado. Essa
concepção, no entanto, é indispensável a todo ser,
a toda sociedade, porque é o sustentáculo, a consolação
suprema nas horas difíceis, a origem das virtudes e das altas inspirações"
(3).
Imaginemos uma escola, coadjuvada pela família, onde a formação
do caráter dos edu-candos seja o objetivo a ser alcançado, fazendo
os professores todos os esforços para esse grande fim. Que belas imagens
em nossa mente! Que quadros emocionantes a envolverem nosso cora-ção!
E não se diga que isso não é possível, pois Pestalozzi
o realizou, Sai Baba o realiza hoje, na Índia, as centenas de escolas
espíritas de evangelização infanto-juvenil o realizam semanalmente,
e tantos outros exemplos podemos apontar como testemunhas dessa possibilidade:
da educação moral do ser humano em plena escola.
Segunda advertência: o exemplo
Temos, ainda, uma segunda advertência no comentário de Kardec:
a educação moral não se realiza pela ilustração
cultural, ou seja, pelos livros. Eles, os livros, são muito importantes,
assim como a cultura em geral com suas diversas manifestações,
mas o livro, o teatro, o cinema, a internet são ferramentas, são
recursos, não são a educação moral. Uma história
pode ser bela e encerrar ensinos profundos sobre valores e virtudes, mas se
não for adequadamente trabalhada, vivenciada e exemplificada pode não
atingir seu próprio objetivo, que é despertar o espírito
para a beleza e necessidade do amor, da solidariedade, da espiritualidade.
Compete aos pais e responsáveis - os primeiros e contínuos educadores
-, e aos professo-res - os educadores formais -, todo o esforço em exemplificar
as lições que entregam aos seus filhos/alunos. Sem o exemplo,
qualquer lição sobre virtudes perde valor, e a leitura pode gerar
apenas um repositório de conhecimento sem aplicação.
A auto-educação é o processo ao qual deve se dedicar todo
pai, toda mãe, todo responsá-vel, todo professor, por maiores
sejam as dificuldades a vencer, pois quem ensina e ao mesmo tempo dá
o exemplo, consegue transformar.
Terceira advertência: o caráter
Finalmente, as palavras de Allan Kardec destacam que "a educação
é a arte de formar os caracteres, aquela que cria os hábitos adquiridos".
Não se pode educar para a paz com o uso da violência, mesmo verbal;
se eu grito com meu filho para ele obedecer, estou usando de violência.
Não se pode educar para a honestidade com a mentira; se eu escondo a
verdade em pro-veito próprio, estou sendo desonesto.
Não se pode educar para a solidariedade com o egoísmo; se eu penso
primeiro em mim mesmo, estou sendo egoísta..
Não se pode educar para a cidadania com a indiferença; se eu não
me importo com o que acontece porque não me atinge diretamente, estou
sendo hipócrita.
Educar moralmente é cultivar na criança, no adolescente e no jovem
hábitos regulares de bondade, de amor ao próximo, de solidariedade
humana, de respeito à natureza e tantos outros; hábitos esses
que se tornarão incorruptíveis porque farão parte indissociável
do caráter do indiví-duo.
Sim, tudo isso é possível e sem menosprezar os conteúdos
curriculares, os alegres passei-os em família, as diversões sadias,
o ambiente cultural, ou seja, sem colocar de lado a vida, por-que a vida é
educação. O que a doutrina espírita enfatiza é o
equilíbrio entre as diversas ações humanas para se atingir
a finalidade de termos sobre a face da Terra, homens de bem. Espíritos
reencarnados que saibam colocar a inteligência a serviço da construção
do bem; que, utilizando a lei de evolução, consigam se moralizar
e espiritualizar graças aos esforços daqueles a quem compete a
missão de educar junto com o indispensável auxílio da auto-educação
deles mesmos.
Conclusão
Que belo sonho, dirão muitos. Não, não é um sonho,
é um ideal que devemos perseguir constantemente, com todas as forças,
pois o amor cresce na medida em que nos propomos a a-mar.
Reconhecendo a necessidade da transformação da educação,
pois hoje o ensinar substitui o educar e a escola substitui a família,
transformação essa que não se restringe a uma mera troca
de palavras ou inversão dos fatores, temos que nos colocar em atividade
prática, no lar, na esco-la, nas diversas instituições
públicas e particulares, para realizar a educação moral
do ser huma-no, único caminho para, o mais rápido possível,
alcançarmos o estágio planetário de regeneração.
Lemos em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 11, item 8: "O
espírito deve ser cultivado como um campo. Toda a riqueza futura depende
do trabalho atual. E mais que aos bens terrenos, ele (o amor) vos conduzirá
à gloriosa elevação. Será então que, compreendendo
a lei de amor, que une todos os seres, nela buscareis os suaves prazeres da
alma, que são o prelú-dio das alegrias celestes" (4).
Não se pode realizar a educação moral sem amor no coração,
porque o amor é a base da educação e a bússola de
orientação para todo educador.
(1) Mario, Marcus Alberto De. Visão Espírita da Educação.
1 ed, Clarim, Matão, 1999.
(2) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de J.
Herculano Pires, Feesp, São Paulo, 1972.
(3) Denis, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 14 ed, Feb,
Rio de Janeiro, 1987.
(4) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução
de J. Herculano Pires, 32 ed, Lake, São Paulo, 1986.
*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor.