
Marcus De Mario*
A Doutrina Espírita considera que "só a educação poderá reformar os homens", conforme a resposta dos Espíritos Superiores à pergunta de Allan Kardec, na questão 796 de "O Livro dos Espíritos". E compreende que a educação não pode ser encarada apenas pelo seu lado instrucional, ou ilustração do intelecto, mas deve ser trabalhada pelo lado moral, na arte de manejar o caráter.
Definindo Moral
E o que é moral? Necessitamos de sua definição para entendermos
a amplitude da educação moral.
O pensador e filósofo católico Jacques Maritain, em seu livro
"Introdução Geral à Filosofia", nos oferece a
seguinte definição:
"Moral, ou ética - ciência prática que visa alcançar
o puro simples bem do homem. Tem por objeto a bondade ou a perfeição
do próprio homem. Ciência dos atos humanos."
E completa essa definição com esta magistral frase: "A ciência
moral deve ser acompanhada de prudência."
Como ciência, a moral deve:
Com relação à conduta do homem deve estudar as regras
que ordenam sua conduta no que concerne ao seu próprio bem e no bem de
outrem, para o pleno equilíbrio da justiça.
Sendo uma ciência, moral não é um termo vago, nem se confunde
com moralidade, que designa o conceito social do que é aceito ou não
em certa época, e que se modifica com o tempo e os costumes.
Informa-nos "O Livro dos Espíritos", obra básica do
Espiritismo, que "a moral é a regra de bem proceder, isto é,
de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O
homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre
a lei de Deus."
Essa definição está na questão 629 e antecede no
tempo a definição filosófica que demos no início
deste artigo, mostrando como o Espiritismo complementa as diversas áreas
do conhecimento humano.
A educação moral consiste na formação do caráter
do educando através de um ensino que prioriza a prática do bem,
a valorização das virtudes e a aquisição do sentimento
do amor.
A educação moral não relega a inteligência a segundo
plano, pelo contrário, dela se utiliza para que o educando saiba distinguir
entre o bem e o mal, entretanto, equilibra os dois fatores básicos da
educação, ou seja, a inteligência e o sentimento, o intelecto
e o coração.
A educação do espírito
Além de considerar a educação moral como legítima
formadora do homem, o Espiritismo ainda vai mais além ao quebrar o materialismo
com a comprovação da imortalidade da alma, lançando as
bases da educação do espírito. Por esses motivos é
que o Espiritismo, lançando seu olhar sobre as escolas, preconiza uma
nova metodologia educacional em três pontos principais:
A conjugação de todos esses princípios na educação
moral é o único caminho capaz de colocar o homem nos trilhos da
bondade, reformando as instituições sociais, hoje tão atreladas
ao egoísmo que deita raízes nos corações.
Enquanto a família e a escola não entenderem a profundidade da
educação moral, continuaremos no desfile dos desregramentos que
temos assistido, quando, se aplicada, a educação moral estabelece
a desejada felicidade, por formar homens de bem, objetivo do próprio
Espiritismo.
A reforma da filosofia que rege o sistema educacional vigente, com a absorção
da educação moral, levará os currículos e métodos
escolares ao verdadeiro fim superior da formação, e não
da instrução. Formação do caráter através
da aquisição de hábitos sadios de vivência com Deus,
com o próximo e consigo mesmo, na prática do bem e do amor.
Uma escola que executa seu trabalho baseada na educação moral
é legítima extensão, complemento mesmo da família,
tornando-se um lar que abriga consciências reencarnadas reclamando diretriz
segura para o uso da inteligência e o desabrochar das qualidades do sentimento.
O Espiritismo, pois, fundamenta e indica a educação moral para
renovação do ser humano e estabelecimento da era do espírito.
Conclusão
Não se pode negar a vasta e profunda contribuição que o
Espiritismo oferece à educação, mas precisamos estar atentos
para a advertência de Leon Denis:
"É necessário que uma grande corrente idealista e um poderoso
sopro moral varram as sombras, as dúvidas, as incertezas que ainda existem
sobre muitas inteligências e consciências, a fim de que a luz das
verdades eternas aclare os cérebros, aqueça os corações,
levando conforto aos que sofrem. A educação do povo precisa ser
totalmente modificada, para que todos possam ter a noção dos deveres
sociais, o sentimento das responsabilidades individuais e coletivas e, principalmente,
o conhecimento do objetivo real da vida, que é o progresso, o aperfeiçoamento
da alma, o aumento de suas riquezas íntimas e ocultas." ("O
Mundo Invisível e a Guerra", 1ª ed., CELD, 1995).
Essa advertência foi escrita durante o período de 1914-1918, quando
da primeira grande guerra mundial e mostra-se ainda bastante atual, ou seja,
quase cem anos não foram suficientes para despertarmos e colocarmos a
filosofia espírita em plena realização na vida. Por que
esperar mais tempo?
*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor, na cidade do Rio de Janeiro.