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Artigo 07

Os Caminhos da Educação

A realidade brasileira necessita do conhecimento espírita

Marcus De Mario*

Pesquisa realizada pela UNESCO, que é o órgão das Nações Unidas para a educação, sobre o ensino médio (antigo segundo grau) brasileiro revelou aspectos alarmantes e que merecem nossa reflexão, pois a doutrina espírita muito tem a contribuir para a melhoria do ensino que se ministra nas escolas. Vejamos o resumo dos resultados dessa pesquisa: "A pesquisa da Unesco, "Ensino Médio: Múltiplas Vozes", realizada em 13 capitais, entrevistando 7 mil professores e mais de 50 mil alunos da rede pública e privada, revelou o alto grau de insatisfação dos estudantes com o que aprendem nas escolas. Não é surpresa, portanto, que 43% dos 8,7 milhões de alunos matriculados nesse nível de ensino já tenham "repetido de ano" - como se diz. Curiosamente, professores e alunos concordaram sobre quais são os três principais problemas do ensino médio: desinteresse do aluno, indisciplina e falta de espaço - social, cultural e esportivo na escola."
Temos então os seguintes itens destacados:

Lembramos que o ensino médio brasileiro trabalha com alunos na faixa etária de 15 a 18 anos de idade, portanto estamos nos referindo a adolescentes e jovens que já possuem bagagem cultural, já tem certo nível de consciência social, jovens que estão apontando o dedo para a escola, dizendo que a mesma não os satisfaz, não preenche seus anseios, o que quer dizer, em outras palavras, que a filosofia da educação e seus projetos pedagógicos não estão atingindo essa juventude. Por quê? A resposta está no enfoque central, básico, dessa filosofia: o materialismo com a conseqüente falta de visão integral do ser, das virtudes, etc.

A causa e a solução

Passemos a palavra ao escritor espírita Pedro de Camargo (Vinicius), em seu livro "O Mestre na Educação": "A confusão ora reinante na sociedade resulta do descaso a que se tem votado a importante questão da educação. Os males que flagelam a humanidade contemporânea procedem da descrença, do ceticismo e da falta de confiança na eficiência da educação moral. O mundo está em crise, crise de dignidade. Desta, se originam as outras. Não é de sábios que carecemos. Os problemas da inteligência estão, por assim dizer, resolvidos conforme atesta o surto imenso de progresso material atingido. Não obstante, o momento que atravessamos é dos mais angustiosos. Os grandes financistas e economistas não solucionam o problema do pão. Os estadistas de renome não resolvem satisfatoriamente o problema político. Os sociólogos de alta envergadura mostram-se impotentes diante dos problemas sociais tais como o pauperismo, o crime, o vício e a enfermidade. Por quê? Certamente porque lhes falta a percepção íntima das grandes realidades da vida, dessa vida que não começa no berço nem termina no túmulo; percepção que só se alcança através do culto sincero da verdade; que só se aprende sondando os arcanos da consciência e auscultando a sua voz; que só se logra no estudo e na meditação da ciência da moral, que é a ciência do coração. Não é de conhecimentos que precisam os homens da atualidade, responsáveis pela situação aflitiva dos dias que correm: é de sentimento."
As causas da situação estão claras: falta de profundidade sobre o ser e a vida, falta de crença na eficiência da educação moral, falta de sentimento para equilibrar o desenvolvimento da inteligência. A escola é reflexo desses posicionamentos equivocados que não levam em conta a espiritualidade do homem, o finalismo superior da existência. Enquanto insistirem os responsáveis pela educação brasileira em ignorar a realidade imortal e a necessidade da formação do caráter com a aplicação da educação moral, a escola continuará sendo alvo de inúmeros questionamentos e o ensino se caracterizará por não conseguir preencher as necessidades do aluno.
Precisamos de sentimento e de uma nova filosofia de educação para renovar a escola a partir da mudança dos projetos pedagógicos, projetos esses que deve levar em consideração os valores da vida e não somente os valores intelectuais, culturais e profissionais. Que adianta ter um diploma que habilita o exercício de uma profissão se nesse exercício não utilizamos a ética?
Ainda sobre essas questões podemos trazer a visão de outro pensador espírita, Léon Denis, em seu livro "O Problema do Ser, do Destino e da Dor": "Como a educação da alma é objeto da vida, importa em resumir seus preceitos em palavras: aumentar tudo quanto for intelectual e elevado. Lutar, combater, sofrer pelo bem dos homens e dos mundos. Iniciar seus semelhantes nos esplendores do verdadeiro e do belo. Amar a verdade e a justiça, praticar para com todos a caridade, a benevolência - tal o segredo da felicidade presente e futura, tal o dever, tal é a fé que Cristo legou à humanidade".
Educar a alma, bela expressão ainda a ser devidamente compreendida. E não se pode educar a alma sem amor no coração e sem trabalhar o bem, a verdade, a justiça, a caridade, a benevolência, tendo no Mestre Jesus o exemplo maior de educador, aquele que ensinou e praticou o próprio ensino, sendo modelo, exemplo vivo da verdadeira educação.

Uma nova escola

A aplicação da filosofia espírita na educação pressupõe o erguimento de uma nova escola, ou melhor dizendo, exige um novo modelo de escola, isso porque, conforme análise do professor e escritor espírita J. Herculano Pires "Encarada numa perspectiva espírita, a educação nos apresenta dois aspectos fundamentais: é o processo de integração das novas gerações na sociedade e na cultura do tempo, mas é também o processo de desenvolvimento das potencialidades do ser na existência, com vistas ao seu destino transcendente. Cada ser traz consigo, para cada existência, os resultados do seu desenvolvimento anterior, em existências passadas. Esses resultados se encontram em estado latente no seu inconsciente, mas desde os primeiros anos de vida começam a revelar-se nas suas tendências e no conjunto das manifestações do seu temperamento. Cabe aos pais e aos educadores observar esses sinais e orientar o seu ajustamento às condições atuais, corrigindo as deficiências e os exageros na medida do possível e ao mesmo tempo propiciando novos desenvolvimentos na atual existência." ("Pedagogia Espírita", página 113).
Como aplicar essa visão espírita do ser e da vida no modelo de escola pública atual? É quase impossível sem a sua remodelação, sem a sua transformação, paulatina mas inexorável para cumprir com as finalidades verdadeiras do processo de educação do homem.
A proposta espírita dá vida à escola, envolve os procedimentos pedagógicos nos interesses existências do aluno, sensibiliza os educadores, abre espaços consideráveis para atividades cidadãs, envolve a família e a comunidade, tudo isso sem malabarismos políticos e sem modismos didáticos: é apenas uma questão de uso do bom senso e da dinâmica que a vida nos oferece, pois o Espiritismo entende essa vida como imortal, interexistencial - espírito e matéria - e essencialmente moral.
A escola então, com a filosofia espírita, será a escola da formação integral do espírito, será a escola do desenvolvimento das virtudes, será a escola do direcionamento da inteligência para o bem, será a escola da integração da família, será a escola da renovação cultural das novas gerações, será a escola de um novo futuro: feliz na medida do possível, fazendo a transição pacífica do nosso planeta de mundo de provas e expiações para mundo de regeneração.

Um novo trabalho educacional

É o jovem um ser irriquieto, repleto de energia e com tendências adquiridas no passado em plena ebulição. Nada disso pode ser menosprezado no processo educacional. Dinamizar esse processo é condição fundamental. Moralizar esse processo é requisito básico. O jovem deve se sentir envolvido pelo processo educacional e encontrar na escola extensão de seu próprio mundo. Somente assim o desinteresse apontado pela pesquisa perderá consideráveis parcelas do atual terreno conquistado nessas almas.
Também a questão da indisciplina encontra solução satisfatória na filosofia espírita aplicada à educação: participação com responsabilidade. Por que o jovem não pode participar das decisões escolares? Por que o jovem não pode opinar e dar idéias? Por que o jovem não pode assumir determinadas tarefas? Por que o jovem tem de ser policiado o tempo todo? Por que a escola deve ficar fechada em quatro muros sob rígida disciplina? Os limites, tão necessários, devem ser compreendidos e incorporados, mas isso só acontece num ambiente que permite participação e distribui tarefas, num ambiente que envolve afetivamente.
Quanto aos espaços reinvidicados - social, cultural, esportivo - reflexo da ânsia por uma nova escola, a doutrina espírita, que encara a vida de forma evolucionista e considera o homem um espírito imortal, sem ter a morte como fim de tudo, leva-nos a compreender que a escola não é toda poderosa para tudo resolver, mas é generoso espaço, específico, de educação do ser transcendente, e que sua ação não se encerra no ato de ensinar. A escola representa o espaço ideal para desenvolvimento das potencialidades do espírito, devendo abrir todas as suas possibilidades para contemplar um projeto pedagógico multifacetado. A vida é educação e a escola representa, em escala proporcional, essa vida.
Para encerrar essas considerações em torno dos caminhos da educação com o Espiritismo, devemos dizer que somente a doutrina espírita possui elementos suficientes para renovar a educação e mudar o atual quadro do ensino brasileiro e do mundo, porque o Espiritismo é doutrina de profundas especulações filosóficas deitadas na rocha firme dos fatos científicos, com conseqüências morais nunca antes experimentadas pelo ser humano, exceção feita aos ensinos de Jesus que, para arrepio dos contraditores, o Espiritismo incorpora plenamente em seu edifício doutrinário e proclama como paradigma eterno da humanidade, assim como também o são a imortalidade da alma e a educação moral do ser.

*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor, na cidade do Rio de Janeiro.