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Artigo 08

A Educação Integral do Ser

Marcus De Mario*

O estudo dos princípios do Espiritismo, informando que todos somos espíritos (ou almas) imortais, remete-nos a uma série de considerações sobre a educação. Dessas considerações, vamos fazer uma síntese, destacando no quadro ao lado as principais questões de "O Livro dos Espíritos" que norteiam nosso pensamento.

A literatura sobre educação é bastante farta, deixando-nos em posição cômoda para estudar e praticar. Não faltam livros sobre sociologia da educação, filosofia da educação, currículo, psicologia da educação, teorias do desenvolvimento da aprendizagem e assim por diante. Qualquer estudante pode deleitar-se à vontade numa biblioteca ou numa livraria, repletas em títulos sobre educação. As universidades produzem teses e trabalhos os mais diversos no campo da educação, portanto, não é por falta de material apropriado que o ensino nas escolas não anda a contento. Na verdade, temos constatado em experiências diversas junto aos professores, a existência de um comodismo geral quanto a continuar os estudos após a recepção do diploma de formação. E nos cursos de formação temos notado muito verbalismo em detrimento da teoria. Expliquemos este enunciado que, na verdade, não é nosso, mas de Saviani (1).

Teoria e Prática
Professores e estudantes confundem teoria e prática com verbalismo e ativismo. A teoria, sempre imprescindível em qualquer ramo do conhecimento humano, significa o estudo, a apreciação, enfim, o próprio conhecimento da ciência ou disciplina à qual nos dedicamos. A prática corresponde às experiências acumuladas de aplicação da teoria. Já o verbalismo é aquele palavrório inútil, carregado de academicismos, quando muito se fala mas pouco se diz. O ativismo é a ação imediata movida pela curiosidade, pela impetuosidade. A teoria não se confunde com o verbalismo, assim como a prática não significa ativismo. Exemplifiquemos a partir de uma situação comum em nossos cursos de formação. Ao estudar sobre estágios do desenvolvimento psicológico da criança, o estudante sentir-se-á impelido a entrar em sala de aula numa escola para colocar em prática o que acaba de aprender. Entretanto, o estudo não se circunscreve a uma única aula, e o conhecimento, dinâmico, se desdobrará a seus olhos em outras aulas. Se a cada aula o estudante quiser colocar o conhecimento adquirido em prática, estará fazendo ativismo, um laboratório de experiências aleatórias, e não prática, ou seja, a aplicação metódica e racional da teoria. O mesmo podemos entender sobre o estudo da teoria e o verbalismo, quando o professor insiste em muito palavrório, em muita informação vazia, sem objetividade, sem critério.

A partir do exemplo acima vemos que é comum a separação entre teoria e prática, quando na verdade são indissociáveis, são complemento um do outro. Os cursos que priorizam a teoria durante vários períodos de estudo colocando a prática apenas na forma de estágio ao final, cometem um grande erro, pois privam os estudantes de construírem as experiências, de fazerem uso da criatividade e de, a partir do conhecimento, desenvolverem uma consciência crítica.

A questão da teoria e da prática versus verbalismo e ativismo nos leva a outra questão, esta fundamental, que é definirmos a educação. Esta definição é mesmo prioritária, pois trata-se de entendermos a educação, o que ela é, a que se destina, o que queremos com ela. Para responder satisfatoriamente perguntas como: o que estou fazendo na escola? para quê educar?, é necessário a compreensão sobre o sentido e o significado da educação. Já o dissemos: "ninguém pode educar se não souber o que é a educação" (2). É preciso estudar, ou seja, mergulhar no conhecimento teórico.

O que é Educação
Para nós, a educação é o conjunto de estudos e experiências que propiciam ao educando desenvolver suas potencialidades de forma equilibrada, objetivando sua formação integral com o fim de termos o homem moral.

Fica implícito em nossa definição o finalismo superior da educação: o homem moral. E também o caminho para esse fim: a formação integral, equilibrada, que podemos ao nível do ensino destacar como sendo a aplicação da interdisciplinaridade, ou seja, o conjunto das disciplinas e dos temas de estudo em ação cooperativa, e não isolada. Também está caracterizado na definição a aplicação da experiência própria, do trabalho por parte do educando, assim como o reconhecimento de que ele é o agente de si mesmo, por ser portador de suas próprias potencialidades. Estamos falando da educação integral, aquela que conjuga de forma dinâmica os agentes sociais, o eu indivíduo e a vida num processo interativo. É sem dúvida, um processo educativo elaborado, mas o único que assegura o cumprimento de seu finalismo superior.

As ações equilibradas da natureza, do meio social, dos estados afetivos, da personalidade, etc., formam o processo da educação. Essa é a visão integral que leva em consideração as trocas e influências entre a família, a escola, os meios de comunicação, o trabalho, o lazer e tudo o mais. Isso importa em estabelecer que vida é educação, e tão rica é a vida que todo artificialismo é dispensável.

Muitos educadores - professores, assistentes sociais, psicólogos, pais, etc. - se desestimulam frente a atividades de estudo, pesquisa e elaboração prática em grupo, denunciando sua falta de visão do homem e do mundo, não conseguindo funcionar satisfatoriamente no âmbito das relações. Esses educadores são sistemas fechados, responsáveis pelo verbalismo inconseqüente e pela constante troca de atividades na busca de soluções. Estão sempre à procura de receitas prontas sem perceber a dinâmica e profundidade da vida.

Conseqüências da Educação Integral
Em nossa definição dizemos que a educação deve levar o indivíduo a ser um homem moral, e isso acontecerá quando priorizarmos a formação no lugar da informação. Quando colocarmos a teoria e a prática a serviço da educação integral do ser.

Preconizamos através destas palavras a reformulação dos cursos de formação de educadores. Também defendemos a recapacitação dos educadores em atividade, pois toda teoria será derrotada se os responsáveis por sua aplicação não forem capacitados para colocá-la em prática. Enquanto os educadores estiverem arraigados ao ensino compartimentado, disseminado em disciplinas e matérias estanques, sem visão de totalidade, sem compreensão da interatividade das partes que compõem o todo, esse ensino não conseguirá promover de forma equilibrada as potencialidades do educando.

Ainda mais grave é constatarmos que, enquanto os educadores não se conscientizarem que a educação possui o finalismo superior de formar o ser, e não apenas de instruí-lo, essa educação que é promovida desde muito tempo jamais conseguirá estabelecer condutas éticas e relações de ordem moral. Para estabelecê-las será necessário resgatar os valores humanos: materiais, intelectuais, morais, espirituais, que encontram-se marginalizados, substituídos pela instrução, pelo imediatismo. É necessário conjugar, com o mesmo peso, os valores humanos com a instrução, ou em outras palavras, equilibrar no processo da educação a formação do caráter com a formação intelectual. Ao mesmo tempo desenvolvermos capacidades motoras e intelectuais com a sensibilização dos sentimentos e aquisição de virtudes.

Realmente, temos de concluir que não é a falta de conhecimento o motivo de tantos problemas no âmbito do ensino, mas, isto sim, a falta de visão integral do mesmo e a falta de conscientização sobre a vida e o finalismo superior da existência do ser humano. Quando os educadores compreenderem essa verdade, eis que surgirá plena a educação.

Referências
(1) Saviane, Demerval. Educação Brasileira, Estrutura e Sistema. Campinas: Autores Associados, 7ª ed., 1996, 161 p.
(2) Mario, Marcus Alberto De. O Espírito da Educação. Apostila. Rio de Janeiro: Ibem, 1ª ed., 1999, 40 p.

*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor, na cidade do Rio de Janeiro.