
Projeto Valores
Humanos para o Centro Espírita
Autor: Equipe do Inede
Médium: (não mediúnico)
Inede
Número de Páginas: 135
Lançamento: abril de 2007
Análise de Marcus De Mario*
Nem toda boa intenção pode ser referendada doutrinariamente. É o que acontece com a obra "Projeto Valores Humanos para o Centro Espírita", que, se tem coisas de bom proveito, traz igualmente o joio misturado ao trigo.
O que pensar de uma obra com base nos ensinos espíritas, mas que defende a laicização do Centro Espírita, o ecumenismo nas práticas espíritas? E porque o sabor de ranço em determinados textos da obra contra o movimento espírita de unficação?
Há confusão, nas críticas realizadas, entre as pessoas que fazem o movimento espírita, e que são suscetíveis de erros, com o próprio movimento espírita, que não se esgota no modelo da unificação.
Ao apresentar propriamente o Projeto Valores Humanos, a equipe o apresenta como um projeto não espírita, mais parecendo um projeto espiritualista de auto-ajuda. Entretanto, ele é para ser aplicado por espíritas no Centro Espírita. E aí encontramos na obra flagrante contradição: na página 59, ao falar dos recursos didáticos, encontramos recomendação explícita de "leitura e comentário das obras básicas ou subsidiárias" (do Espiritismo).
Os autores insistem que o projeto deve ter abordagem de caráter universalista, mas a todo momento inserem exemplos literários retirados da bibliografia espírita, e ficamos sem saber o que deve ser feito: falamos ou não de Espiritismo? Por toda a obra essa contradição é evidente.
O capítulo 7, com o título "Organizando e Desenvolvendo o PVH", traz roteiro detalhado para trabalhar 12 temas. Desses roteiros podemos retirar boas coisas, úteis para o trabalho no Centro Espírita, mas ao mesmo tempo encontramos sugestões de atividades e conteúdos que nada tem com o Espiritismo, algumas inclusive bem menos profundas do que encontramos na literatura espírita.
A boa intenção de trabalhar valores humanos, afetividade, sentimentos sucumbe diante de uma proposta que parece querer tirar do Centro Espírita o próprio Espiritismo, numa pretensa abertura espiritualista que perigosamente tangencia a descaracterização da doutrina e do seu movimento representativo.
Sendo o Espiritismo uma doutrina cujos princípios e todo o seu corpo doutrinário foram exaustivamente estudados por Allan Kardec, assessorado por equipe composta de Espíritos Superiores, não vemos razão para interpolações espiritualistas, nem motivo para mascarar um trabalho a ser realizado pelo Centro Espírita. Ou somos espíritas ou não somos. Ou o Centro Espírita representa o Espiritismo ou muda de nome e passa a representar qualquer outra doutrina. Não se pode admitir que fiquemos em cima do muro, mas é exatamente o que propõe a obra "Projeto Valores Humanos para o Centro Espírita", e o que não podemos aceitar.
Que a equipe de trabalhadores do Inede, sem dúvida com boa intenção, reveja o trabalho, extirpando de seu conteúdo o que nada tem a ver com o Espiritismo, caracterizando definitivamente a proposta como espírita.
*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor, na cidade do Rio de Janeiro.