
A Derradeira
Esperança

Autor: Yvonne do Amaral Pereira (Espírito)
Médium: Alaor Borges Júnior
Editora: Mythos Editora
Número de Páginas: 298
Lançamento: 2007
Análise de Marcus De Mario*
Nosso primeiro esforço nesta análise é perguntar se temos elementos literários que possam confirmar a autoria espiritual da obra como sendo de Yvonne do Amaral Pereira. Esse esforço se impõe porque Yvonne A. Pereira é conhecida médium espírita, tendo deixado obra psicográfica de vulto. Mas não apenas psicografou, escreveu também de próprio punho artigos e crônicas que estão enfeixados nos livros Cânticos do Coração (2 volumes) e A Luz do Consolador, além de ter concedido entrevistas que estão publicadas no livro Pelos Caminhos da Mediunidade Serena. Assim, temos elementos literários suficientes para comparar a obra em vida com a obra de autoria espiritual, agora que Yvonne A. Pereira se encontra desencarnada. Lembremos que, além de ter sido considerada excelente médium, foi também reverenciada pela sua dedicação aos princípios espíritas e por ampla obra de assistência aos socialmente carentes e, em particular, aos suicidas.
"A Derradeira Esperança" é um romance, estilo literário que Yvonne Pereira deixou a cargo dos Espíritos, preferindo desenvolver como escritora apenas artigos doutrinários e crônicas.
Pois bem, a história se passa na Guatemala, contando a saga de uma família mexicana que havia se transladado para a Cidade da Guatemala (capital). No capítulo 5, página 42, a autora informa que a personagem principal teve que ser transportada, de forma emergencial por motivo de saúde, para um hospital da Cidade do México, capital deste país tão nosso conhecido. Quem deu a notícia para os pais da personagem foi o motorista que havia naquele mesmo dia, à tarde, feito o transporte. Há, aqui, um gravíssimo problema de logística. Da Cidade da Guatemala até a Cidade do México distam mais de 1 mil quilômetros, e a história se passa no início do século vinte, portanto, temos transporte deficitário. Como o motorista, com seu carro, conseguiu em algumas horas, da tarde para a noite, fazer a viagem ida e volta?
Na página 43, o motorista informa aos pais da personagem que não seria possível seguir viagem naquela hora, era noite, pois havia chovido muito e todo um trecho da estrada estava intransitável, correndo risco do carro ficar totalmente atolado. Então, perguntamos, como ele passou para chegar no sítio?
Ainda nesse capítulo, na página 45, descobrimos que o sítio distava 36 quilômetros da Cidade da Guatemala, e que para ir até a Cidade do Méxixo era preciso pegar outro veículo, e que o motorista citado não poderia fazer essa viagem. Não é explicado o porque disso.
No capítulo 7 temos um acontecimento muito estranho, sem nenhuma explicação lógica. Raimundo, o motorista, tinha ficado, como vimos, na Cidade da Guatemala, mas, de repente, apareceu, no dia seguinte, no hospital, na Cidade do México, para uma visita. Como ele fez a viagem?. E quem autorizou, pois a diretora da escola onde trabalhava tinha feito a viagem na véspera?
Nas páginas 65 e 66 temos um diálogo entre a personageem central, Inês, com o motorista Raimundo. Quem lê os escritos de Yvonne Pereira, de uma correção e clareza ímpar, não pode deixar de notar que este diálogo é empolado, rebuscado, teatral. Nem parece que são dois jovens comuns, do interior, que estão conversando.
No capítulo 8, página 83, há referência da leitura do Evangelho por parte de Inês, e também por parte de Raimundo, que tinha exemplar ofertado com dedicatória pela jovem. De onde surgiram esses exemplares se a viagem tinha sido feita na emergência, sem nenhum preparativo prévio? E como o jovem tinha um exemplar se eles se conheciam apenas de vista, no emprego? Outro fato curioso é que a jovem passou toda a segunda-feira e também a terça-feira sem receber visita de seus pais, que haviam viajado às pressas para estar com a filha, e, pontualmente no final da tarde, os pais aparecem no hospital exatamente na hora em que o médico dava a alta. Coincidência ou mediunidade intuitiva?
No capítulo 9, já todos de volta ao sítio na Guatemala, vemos a personagem Inês muito à vontade na porta de sua residência, lendo o Evangelho e explicando a leitura às pessoas que por ali passavam e paravam. Flagrante contradição com o exposto na página 34, quando pais e filha comentam sobre perseguição velada que estavam sentindo, com o povo dizendo que a jovem, por causa da sua mediunidade, pudesse ser uma bruxa. Como esse cenário mudou?
No capítulo 11, e não somente nele, encontramos erro de concordância. Lemos "curioso é que, embora todos participaram efetivamente do mesmo labor...", quando o correto é "... embora todos tivessem participado ...". Yvonne A. Pereira não cometeria esse e outros deslizes de mesmo teor que encontramos em várias páginas na obra.
Na página 114, mesmo capítulo, após um passeio no sítio e tendo as moças ido ao ribeiro, almoçaram. Inês informou que um dos peixes servidos fora pescado pelo garoto da família visitante. Como, perguntamos, se ele não foi ao ribeiro? E na mesma página encontramos um erro doutrinário de vulto: "O episódio da noite passada estava sepultado nos porões da memória perispiritual". A mente não está sediada no perispírito e sim no Espírito. O pensamento é tudo, e assim como o cérebro físico não detem a memória, sendo apenas instrumento de sua exteriorização, o corpo perispiritual também não armazena a memória do Espírito.
E agora temos o que nos parece um escrito que Yvonne A. Pereira jamais faria: "Após ter feito a prece, pegou o Evangelho de Kardec...". Está na página 115, no mesmo capítulo 11. É O Evangelho Segundo o Espiritismo, e Yvonne Pereira, em seus escritos e entrevistas quando encarnada, sempre fez questão de citar as obras da codificação espírita como sendo obra dos Espíritos, daí ser o Espiritismo doutrina dos Espíritos, e não de um homem, como o próprio Allan Kardec deixou bem claro, com todas as letras.
No capítulo 12, outro erro incrível: "Rolando adentra à casa em desembalada correrria ...". Está incorreto, pois a palavra desembalada significa perder o embalo, ir mais devagar, e o contrário é o que estava ocorrendo. Yvonne Pereira cometeria esse erro?
A autora espiritual abusa da repetição de palavras como "lógico", "interessante", "curioso", chegando a irritar o leitor pelo excesso. Isso não é Yvonne Pereira, assim como "sexto sentido" (página 188), "transfusão perispirítica" (página 189) que não pertencem nem ao vocabulário da autora quando encarnada, nem ao vocabulário espírita.
Na página 191, capítulo 18, temos uma descrição literária muito pobre do veículo espiritual utilizado para trasnporte, na verdade descrição bem ruim, o que contrasta com o muito bom conhecimento que a médium Yvonne Pereira tinha da espiritualidade, como pode descrever em livros como "Devassando o Invisível" e "Recordações da Mediunidade".
Como conclusão podemos dizer que o livro "A Derradeira Esperança" é, literariamente falando, um romance menor, de onde se extraem sim boas lições, mas que contém deslizes literários e doutrinários.
Quanto à autoria espiritual, temos elementos que nos levam a entender que não se trata de Yvonne do Amaral Pereira.
*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humilddae e Amor, na cidade do Rio de Janeiro.